Roberto Gamito
Textos sortidos.
Humor; seja ele negro ou menos negro. Frases, aforismos. Desabafos. O lado negro do negro. Amor e a falta dele.

Não sei nada. Apenas sei que, graças aos teus lábios, o meu sorriso ganhou segundos. Ergues lentamente o corpo da cama, como uma árvore, em direcção ao sol. De mim não esperes mais que um belo canto, pois sou um pássaro que, ao ver a sua árvore adquirir força e área, se apercebe da sorte que tem e como foi ajuizada a ideia de ter construído, na árvore, o seu ninho.
E os nossos beijos amadurecem mas não caem.
E os nossos lábios captam todos os sentidos dos versos de um poema. Talvez seja amor.

- Roberto Gamito

“ Não adianta gritares o teu nome, há muito que os outros te conhecem por anónimo. ”

—    o amor não pagou a conta (via oamornaopagouaconta)

Faces visivelmente deterioradas pelo incansável tempo
E o silêncio que trazes nos lábios 
Os lábios, já distantes, que era por onde tudo começava
Princípios perfeitos - lembro-me.
(E os parênteses nunca fechados
E a eterna rivalidade entre o repouso e o vento da vida.
A esperança caiu, desamparada, no solo frio da incerteza.
Somos tão-só um eco de um sussurro. 
E os pássaros emudeceram.
E o pintor que danificou a tela de tanto chorar? 
E os poetas que tentam corromper a realidade com um punhado 
de mentiras 
maquilhadas.
Poetas, quais traficantes de sensações, tiram da vida para pôr na escrita.
A vida não rima com coisa nenhuma.
)

- Roberto Gamito

Olhar encriptado

É nos olhos de uma pessoa que o passado se mantém vivo – no presente. Os olhos são o refúgio perfeito. São eles que guardam as alegrias, as tristezas, as desilusões, sonhos e uma panóplia de coisas que os humanos – cada vez menos humanos – que pouco sentem, adoram catalogar. Em todos os olhares há um passado encriptado. Cada olhar é uma oportunidade para conhecer. Conhecer leva tempo; nos dias de hoje ninguém tem tempo, daí ninguém se conhecer realmente. É no olhar que o passado olha para o presente. Olhos que completam as frases que deixas a meio, por medo, por receio, por tudo e por nada. O tempo não passa, tu é que passas por ele. Envelheces. Envelheces mais. Somos tão bons a envelhecer. Estás a envelhecer: por fora. Por dentro, já estás morto há muito tempo. Os relógios não jogam a teu favor. O tempo não quer saber de ti.

- Roberto Gamito

Cancro

Aqui está um assunto coiso.

Fazer comédia com cancro. Ofensivo? Podemos dizer que sim. Mas não é a comédia que é ofensiva, é o que a piada nos faz lembrar. O não lembrar é sempre melhor do que conviver com a realidade. Não condeno, cada um tem uma maneira de estar na vida.

Mas há uma maneira que, por sinal até bastante fácil, até para pessoas que só usam o facebook e caixas de comentários de jornais, que é – veja-se a parvoíce – não frequentar sítios onde se faça humor negro. É difícil? Vou dizer de novo, vocês, por incrível que pareça, têm a opção de não ir a esses sítios e escolher o que querem ver e/ou ouvir. Os óculos da liberdade estão embaciados, ou só querem embirrar?

“Dizer piadas” é uma das muitas formas que o ser humano tem de comunicar. Então vejamos, podem abrir uma qualquer gramática. Temos um emissor, temos um receptor, uma mensagem, um contexto, um código e temos um canal.

Emissor é quem diz a piada. Receptor é o público que recebe a piada. Contexto, o cabrão do contexto, é o que já foi dito na conversa. Ora, as pessoas cobertas de razão, e por vezes até de roupas de tons mais mortiços, gostam muito de isolar piadas. São uma espécie de químicos, que isolam moléculas, sem perceber a reacção que lhes deu origem. E coisas, que já não me estão a ligar nenhuma.

E o mais bonito é quando as pessoas desejam a morte, ou o cancro, à pessoa que fez a piada. Nada contra, a mim nunca me dão nada, e a darem-me que seja um cancro, que flores não pode ser que eu sou asmático. Fazer uma piada não pode ser, mas agora desejar um cancro a uma pessoa já pode. E assim se fode milhares de anos de evolução com um raciocínio. Por isso, façam esse esforço, não desejem a morte a ninguém, e, se não for pedir muito, pensem nas coisas antes de dizer o que quer que seja. Matam a espontaneidade, mas preservam um amigo, nem tudo é mau.

- Roberto Gamito

Frases Gastas # 5

Amar é uma decantação. Separa o útil do supérfluo.

O nervosismo tira a força até à mais poderosa verdade. Verdade sem convicção é apenas uma história: a história que poucos contarão, pois é na convicção que reside tudo é que passível de ser admirado.

O amor está no amanhã.

O amor é quando o nosso coração conspira contra nós: a nosso favor.

Eis-nos, agora, sem aquilo que tivemos outrora. Amor que se esvazia através de um serpentear de dor. Na ausência dele, o amor, esse domador de significados, tudo é vão, tudo é ínfimo, tudo é desdenhável. A não ser a escrita. A escrita vive na ausência de amor. Acredito, piamente, que a escrita só pode encontrar a felicidade no sofrimento humano; esse filho de um não amor.

- Roberto Gamito

Frases Gastas #4

Poesia, pernas femininas bem torneadas e um copo cheio. Um poeta fica-se, quase sempre, pela poesia, com ou sem mestria, porque as pernas serão pernas seja noite ou seja dia; e, com o tempo, esse professor que nunca desiste de nós, vais perceber que as pernas são filhas do intocável. O copo; esse tão intermitente companheiro… esvazia-se com uma facilidade impressionante.

A fantasia é a realidade a improvisar.

(…)
Fica sempre um «amo-te» por dizer… Desta vez não… amo-te, amo-te tanto, amo-te, e cada vez mais… como se fosse possível adicionar algo ao infinito. O meu amor é teu. Fica com ele… e comigo.

Quando a beleza se esgota, fica o durável: aquilo que te acompanhará para o resto da vida. Evitar a procura de conhecimento é matar a beleza interior, é viver, com e para, a superficialidade. Não gosto de seres de superfície. Não gosto de mim.

Possuída, percorrida, o meu corpo no teu, seja agora ou no céu. Contigo aconteço, pois só contigo eu existo. Não há antes, há agora. Amor, amor: esse coleccionador de momentos raros.

Envelhecer bem é quando deixas ir, para um longe de perder de vista, a beleza efémera: para te entregares de corpo e razão ao conhecimento.

Toda a vida foi feita para envelhecer. A paz d’alma nasce da aceitação desta verdade insofismável.

O teu rosto é uma paisagem que o meu coração, cada vez mais pintor, ousa esboçar.

- Roberto Gamito

Frases Gastas #3

O amor é a crença dos que em nada acreditam.

O amor é - não é nada - um pensamento lateral.

Declaração de amor.
Contigo é sempre primavera.

Amor é fogo, amor é mudar, amor é incandescência. A mudança só sucede devido ao calor da forja. Só o tempo te pode dizer se o que foi feito, pelo calor do amor, é para sempre. O amor é a última chance que os homens têm para serem diferentes, para começar de novo, para escolher novas armas, para escolher uma nova máscara, para ser. Deixa arrefecer e verás.

A idade mede-se em quilogramas. Quanto mais velho estás mais gordo ficas.

O tempo é o filho mais velho da morte.

Primeiro, o desconhecido apoderar-se-á do teu corpo, depois da alma e em seguida dos interstícios do que é ser humano. Sem amor: a vida encarregar-se-á de te encher de vazio. Sim, é isso que somos: um vazio por preencher. O amor é antes de mais um antídoto para o vazio. No vácuo, esse nada silencioso, a vida nunca poderá ser chamada vida. É preciso amar, é preciso preencher o vazio, é preciso viver o amor. Segundo? Não há caminhos secundários no amor.

Os sonhos são o oxigénio da alma.

Romancista inexperiente. 
Continuo a não saber: se o sexo é o prólogo ou o epílogo de uma história de amor.

Novos tempos. 
Todas as mulheres sonham com o seu Republicano encantado.

Declaração de amor.
Por ti deixo de ver pornografia.

Amor é quando a palavra “intensidade” fica incandescente.

Cala-te. Deixa o teu corpo falar.

Amor. O que é.
Sintonizar a felicidade.

A hipocrisia é, e será sempre, o dress code da sociedade.

- Roberto Gamito

Acontecemos

Acontecemos. Mesmo quando não queremos acontecer. Acontecer é abraçar o visível, fazer troça do impossível, ficar enamorado pelo conhecível, ficar longe do desprezível e, quase sempre, beijar o compatível. Aquele que tenta a todo o custo se esconder do visível, o invisível, também pode acontecer; claro que pode, mas nunca sozinho. Ao passo que para o visível acontecer, basta acontecer, o invisível precisa que a tão vaga dúvida lhe dê um empurrão.

As pessoas estão sempre a dizer o que pensam. Mesmo caladas. Sobretudo caladas. O silêncio é o local onde todos os sentimentos tímidos – os mais profundos e inacessíveis – habitam. Tudo o que não pode ser dito pelas palavras é dito pelo silêncio. 
Algumas pessoas usam as palavras – em abono da verdade, são as palavras que usam as pessoas – para dizer o que pensam. Outras – todas – usam o silêncio para falar sobre o que sentem. As pausas, as acções: escondem a intensidade do sentir, uma profundidade, a genialidade, tudo aquilo que passa ao lado dos seres de superfície – aqueles a que o conhecer significa «tempo perdido». Ser amigo, é ter que ouvir. Nem que seja o silêncio; acima de tudo o silêncio. Para um amigo, e apenas para ele, o silêncio não é silêncio – são palavras afónicas à espera de um interlocutor. A muito nobre e eterna amizade é, se assim o quiser, o megafone do silêncio. Disseca, sem matar, ouve quando não há nada para ouvir. Está, quando os outros não querem estar: assim é a amizade.
Escutemos. O silêncio tem sempre tanto para dizer. Acontecemos. Sim. Acontecemos.

- Roberto Gamito

Animais

Parece que há para aí um surto de budismo ou coisa que o valha. Então não é que agora todas as pessoas adoram animais?! Espantoso! Finalmente as campanhas de sensibilização a alertar os maus tratos, sobre animais domésticos, estão a ter resultados. Que bom! Vou só dar uma bolacha ao enxame de cães que tenho à minha porta e já venho.

Ainda cá estão? Óptimo: devem estar furiosos.

Eu adoro animais. Passo a maior parte do meu tempo com eles. Sejam bípedes ou quadrúpedes. A morte de um animal é sempre um acontecimento terrível, ainda mais, se este for o nosso companheiro. Vamos lá ver uma coisa, seja touradas, seja lutas, seja meninos que mordem cães ou vice-versa. Os meninos da espécie Homo Sapiens não se podem reger pela máxima
“dente por dente”, está bem? Então vocês, pessoas cultas e de boas famílias, abandonam-me assim a humanidade ao “mínimo” sinal? Querer a morte de alguém por maltratar um animal é um pouco demais. Vamos lá depositar um pouco mais de fé na Justiça. E vamos lá arrumar esses valores por cores, pode ser?

Ah!, e já que estamos nisto. Não matam animais? É? Então e a pegada de carbono? E a poluição que fazem todos os dias? Então e essa “inconsciência ecológica”? É só para o que vos convém, não é? Se for lá longe não importa muito. Pois, os animais da savana não têm facebook para partilhar os vossos – os meus – efeitos sobre eles, não é? É pena. Valha-nos a ignorância.

E já agora, calminha com essa agressividade; se fosse por vontade de algumas pessoas, Noé teria enchido a arca de tal forma, que, hoje em dia, toda a gente conheceria esse episódio como “O Submarino de Noé”. Seria chato, sabem porquê? Porque a arca não é um submarino, disse-me aquele Almirante mascarado de Albatroz. E se assim o fosse, não existiriam homens. É a vida. Não, por acaso até a morte.

- Roberto Gamito

Considerações sobre o mundo da comédia

“As piadas aparecem por geração espontânea” 
As piadas são de todos e não são de ninguém; a facilidade com que o inconsciente do ser humano assimila este pensamento é impressionante. A piada é uma propriedade intelectual onde cabe toda a gente, não há necessidade de dizer que é de alguém, afirmam muitos se conseguissem falar enquanto levam no focinho. Vamos lá ver uma coisa, nada aparece do nada, todas as piadas, anedotas, surgiram em algum momento por alguém, que, teve a disponibilidade intelectual para formatar o pensamento e transformá-lo em piada. 

"Ser comediante é fácil.”
É tão fácil como aprender Física Quântica. Talvez um pouco mais difícil. Tanto a Física como a Comédia assentam em meia-dúzia de pressupostos. É a partir deles que nasce tudo o resto. Há diferenças? Na comédia os pressupostos são e devem ser quebrados quando o motivo é a tão nobre piada.

Estilos de comédia e as suas fraquezas.

Humor de observação.
A grande fraqueza é o ver. Todos vêem as mesmas coisas. Todos pensam que vêem diferente. Há poucos que conseguem ver o que outros não vêem: isso requer uma disponibilidade mental muito grande. O lado mais fácil deste tipo de humor é também o mais difícil: observar. Ver com olhos de criança: ver tudo pela primeira vez. A tranquilidade e o foco são duas das qualidades de quem escreve este tipo de humor. É preciso estar em tranquilidade para ver diferente o que à primeira vista parece igual. E foco, porque é preciso conhecer o que se vê. Estas duas coisas: tranquilidade e foco, aliadas à capacidade pueril de deslumbramento: criam os melhores comediantes deste estilo.

Humor negro.
Falar sem filtros: esta é maior qualidade deste tipo de humor. E esta é a génese do humor: falar o que ninguém fala, como mais ninguém fala. O humor negro está sempre na fronteira do supostamente correcto. Tem a tarefa inglória de alargar o perímetro do que se pode falar. É muito fácil fazer mau humor negro. Claro que é, como é fácil fazer mau humor noutro qualquer registo. A diferença é a força de um impacto de uma piada de humor negro. Quando não é uma piada, faz-se notar, ao contrário de outra “menos ofensiva”.

Nonsense.
Aquele humor que está no limite do identificável. Do humor tem uma das suas grandes qualidades: a surpresa. Nonsense é ser surpreendente, inesperado,
Por vezes, tem o rótulo de inteligente. Se tem, deixem estar. Ir ao limite do que é permitido para fazer uma piada e ainda assim fazer rir, requer inteligência. Por outro lado, toda a comédia tem inteligência. “Defeito:” requer uma disponibilidade do público para o diferente.  

Físico.
Limitado. Não há grandes obras literárias de humor físico. As palavras limitam-nos menos. Qualidade: Riso fácil. Faz-nos sentir o que é ser criança. Grande defeito? Não pode ser feito por tetraplégicos.

- Roberto Gamito

Dragões, armas e palavrões

Desperto ou não desperto? Acordo o fútil; o genial adormece. A convite da futilidade permaneço no aqui, ali, um igual inalterável. Foda-se, cada segundo é um segundo sem significado – desperdiçado e amaldiçoado. Não há esforço algum em ser mágico. Hoje vivo na – e para a – ilusão. Para o céu fogem os sonhos e tudo aquilo que a gravidade acha desinteressante, ainda assim; não é mau de todo, é uma óptima oportunidade para apreciar a roupa interior de um Deus chamado Deus.

A noite é o leito de tristeza. O importante é mutante, a procura também: fomos paridos pela confusão. Genuíno? Nunca; o que escrevo não me pertence, é e sempre será da minha experiência. Nem eu sou digno de me pertencer. O desgosto é o clássico que nunca envergonha – tornou-se banal, é de todos. Começar de novo, belo pleonasmo que para aqui está armado. Começar o velho, não é começar: é pegar, recomeçar, confiscar: um teu que antes não te pertencia.

A minha engasgada gana, aquela chama que todos querem apagar, é a intensidade da minha humanidade. Aspirações, inspirações, todas enterradas no passado pelo presente. Vento de um ventre de um futuro que te abortou.
(Pausa para sentir)

A dor, sempre ela e nunca outra, não passa de um caminho. Um caminho para o abismo. Quanto maior a dor, maior o caminho: este é o mecanismo. A depressão é quando ficas viciado na dor. Sim, tu sabes do que é que eu estou a falar; até sentes o frio dessa planície escondida entre paisagens montanhosas desenhadas por ti – ou melhor, pelo teu inconsciente, aquele que não se deixa ver. O medo é a gravidade que não te deixa sair do abismo, das paisagens medonhas: de uma beleza infinita. A depressão é um modo de não vida. Nem sequer é sobreviver. É um não viver. Desengane-se aquele que pensa que não viver é menos custoso do que viver. Não viver é uma arte. É o equilíbrio da existência. É querer sempre o depois porque o agora já foi encetado. É esperar – ainda que muito timidamente – por uma solução. Não viver é estar a um milímetro da morte. Não viver é também a forma mais profunda de nos conhecermos. Não viver é repetir a mesma fórmula frásica vezes sem conta, pois o hábito é o único conforto possível. Só a constância da dor é capaz de nos dar alívio. A depressão, essa é para sempre, uma mercenária sabida, aquela que nos negoceia pelo maior preço e onde há sempre dois interessados – a vida e a morte. Só resta saber qual delas padece do maior interesse em nos possuir. Tudo em ti é doentio, ó Depressão.


- Roberto Gamito

Amor é

A memória é tudo aquilo que não permanece: que esvoaça para longe do olhar; e do coração, ainda que – numa velocidade completamente diferente – também se distancie e deixe de nos pertencer. Nada é realmente nosso, tudo é emprestado, até as memórias. A veracidade desse sentir dita o tempo de vida dessa lembrança, e muitas das vezes – o nosso. Memórias marcantes – sejam boas ou menos boas – são aquelas que não nos abandonam. Viver por amor é a única maneira de viver. Amor só o é, se for incondicional, pois o amor é assim – incondicional, inquestionável e por conseguinte impraticável.
É impossível a um Homem, seja que Homem for, amar incondicionalmente, amar é ser perfeito; e nós somos um amontoado de erros. Faz-se o que se pode; para amar incondicionalmente teríamos que abdicar das nossas fraquezas, medos, e tudo aquilo que resulta da fricção do viver com a realidade. Com isso não seríamos homens, seríamos Deuses. Ser Deus é ser amor. Nós, somos apenas e só um protótipo de um Deus, feitos à Sua imagem, ainda que, por sorte ou azar, não se tenham preocupado muito com os acabamentos. Nós não somos amor, nós queremos amor.  


A definição de amor é mudável de pessoa para pessoa; convenhamos, esta é a acepção mais confortável que existe quando se quer esclarecer algo. A ficaríamos por aqui, se o conforto fosse a minha zona de conforto. Na verdade, suspeito que é o desconforto que traz a procura e o amor. Cada um de nós é um batalhão de personalidades, que a idade, com o auxílio do tempo, está incumbida de ordenar. (a idade é o ponto, e o tempo é o antes e depois) Somos sempre diferentes. Neste mundo que nunca é igual, a definição do amor… muda. Será que muda?  


Muda. Já não há espaço nem tempo para amar. Amar é descobrir, para descobrir é preciso tempo. Amar é quando o tempo e o espaço se interpenetram para formar algo menor, em dimensões (o espaço e o tempo coincidem quando há amor; os corpos daqueles que se amam passam a ser o referencial de uma nova vida); mas com um significado infinitamente maior.
É por esta razão que se diz que o tempo pára quando estamos ao pé da pessoa amada; e não interessa onde estamos, o que interessa é com quem estamos. As definições de tempo e de espaço deixam de fazer sentido quando descobrimos o amor.
O amor está nos antípodas da orientação. Estou a hiperbolizar, é claro que o amor é orientação, o amor é isto – exagero, incoerência e fantasia. Alguém possuído pelo amor, esse tão metamórfico sentimento, é alguém que está a ser regido por novas forças. O frio e o calor são as novas distâncias das pessoas que saboreiam a iguaria amor. O longe é o frio, o calor é o perto. Amar é ser governado pelas temperaturas da alma e do subserviente corpo. Deixar de amar é quando deixas de querer saber do frio e do calor, e te deixas seduzir pelo tão banal cima-baixo, direita-esquerda, frente-trás. Este sistema é óptimo: para animais, objectos, mas para seres humanos é tosco, obsoleto e sem valor. Nós somos o frio e o calor de alguém que nos procura.

O amor pode vir em forma de pessoa, ou pode ser ainda um querer antropomorfizado: a que os intelectuais chamam – e erradamente – de paixão. A escrita, ou qualquer forma de arte, tem laivos de paixão, de amor. Ainda assim, não podem, nem devem ser comparáveis. A escrita, ou outra qualquer forma de depositar humanidade, seja qual for o suporte é, quase sempre, unidireccional. Ainda que se diga que é uma libertação. A escrita não é libertadora, tomo-a mais, isso sim, como uma escravidão intermitente. Prendo-me para me poder libertar, este é o ciclo vicioso da escrita. Uma escrita digna desse nome é quando há partilha de sonhos e angústias: em formas de metáforas mais ou menos subtis, mas nunca será um amor. Não há troca. Eu preciso da escrita para me manter quente e não frio, mas a escrita não precisa de mim, sou prescindível, se não for eu, haverá outros, e tantos outros que há. Este “amor”, “esta paixão” nunca poderá chegar ao nível do amor-dos-homens. A não ser que abrace a loucura, e aí, tudo o que penso como coerente, deixaria de o ser. E aí seria amor: se estou quente quero estar frio, se estou frio quero estar quente. 

- Roberto Gamito

Frases Gastas #2

A genialidade não é mais do querer ver aquilo que está vedado para a maioria.

O hábito existe para tornar o desagradável mais suportável.  

Se não é diferente não é comédia.

- Roberto Gamito

Uma vida significante

Vejo o silêncio. Ouço o reflexo. Sinto a incoerência. Penso e repenso; regresso ao que fui; à tristeza, esse mar imenso, um eu passado que não destruí. Para a utopia todas as rotas são válidas: o que conta é o caminho, pois o destino é – e será sempre – vedado aos mortais. O destino foge de ti, e tu foges dele – estão bem um para o outro –, porém, ele estará sempre atrás de ti; à tua frente. Pareces saber – ainda que inconscientemente – que o destino do Destino é a morte. Queres sentir, ficaste pelo fugir. O tempo empurra-te para a frente, deixas para trás os sonhos; a única coisa que consegues agarrar são as memórias, algumas – aquelas que tu chamas «as mais marcantes». Regras quebradas que tu reparas. Anseias pelo diferente, acabas por acarinhar o óbvio. Ajuda que não chega, porque não sabes o motivo de tamanha tristeza. Não gostas de errar e sabes – ainda que queiras esconder de tudo e de todos – que, esse é o teu maior erro.
A vida é a única coisa que te prende à vida. Não há liberdade absoluta, a vida é uma prisão: ela prende-te, e tu não tens outro remédio que não o de te deixares prender. A morte dá-te liberdade, por sorte ou azar dá-te também a impossibilidade de a poderes apreciar. Nunca serás livre; porque a vida é uma jaula, os outros – e sobretudo tu – foram treinados para te limitar. Um corpo que aquece, uma alma que evapora e uma morte que te leva para o esquecimento, assim é a vida humana. Um dia não serás ninguém. Menos ainda do que aquilo que julgas ser neste momento. A vida é um fracasso sem guarnição, uma jornada sem mapa; um caminho sem regresso. Querer ser não é um caminho, é quanto muito a linha de partida, não da última e tão derradeira morte, mas, da primeira vida: aquele momento mágico em que tu reconheces que tens vida em ti, e admites a importância de ter significado. Se há valor na vida humana é o ensejo de dar significado, a coisas, e principalmente pessoas. Dar importância àqueles que se esqueceram que o são. Lembremo-nos – afastemos primeiro a arrogância – o quão é importante a palavra certa no momento certo. Os momentos certos são todos aqueles momentos que tu crês certos. Somos livres de escolher o momento e temos o poder de transformar o insignificante em significante.
Dá valor ao que tem valor, e terás descoberto um dos – se não o único – caminho para a felicidade.

- Roberto Gamito